Não há nada além do que não há

Cinco da manhã, latas de lixo
Todos os tabus vão despertar
Deita meu amor, ainda é cedo
Pra que tanto amor desperdiçar
E pra que sair diariamente
Não há nada além do que não há
Mais um guarda em cada esquina
Uma guerra de rotina
Deita meu amor, que rosto lindo
Que vontade, eu vou espreguiçar…
Não dê jeito na mobília,
Nem lembranças pra família
O cheiro da manhã, em nós

(Paulo César Gyrão de Castro / Gerson)

Alaíde Costa é daquelas musas que nos fazem brilhar o olhos de admiração e contemplação. A primeira vez que eu ouvi sua voz foi no consagrado dueto com Milton Nascimento, o samba Me Deixe em Paz, de autoria de Monsueto Menezes e Ayrton Amorim, no famigerado Clube da Esquina. Desde então eu comecei a perseguir essa intérprete de voz doce e sentimental e acabei por descobrir algumas jóias da Música Brasileira. No seu álbum Antes e Depois, de 1974, ela canta Diariamente de Paulo César Gyrão e Gerson.

Eu acredito que existem versões definitivas. Atrás da Porta, por Elis Regina; Beatriz, por Milton Nascimento; Diariamente por Alaíde Costa. A força que ela imprime nessa canção, o sentimento quase sólido que exala da sua voz, me deixa os olhos cheios. A versão de Alaíde me pegou desprevenido, indo para o trabalho, caminhando numa segunda nublada pela manhã, desesperançoso com o porvir, com o coração machucado e sem muito rumo.

Tenho canções para cada momento da minha vida, para cada desalento que meu coração sofre, para cada desatino de desesperança que solavanca o estômago e deixa a boca amarga. Alaíde me fez lembrar daquilo que poderia ter sido, daquilo que pouco durou e muito me deixou marcas. O cheiro da manhã ainda aparece, não sei se é real, ou se é só minha mente confusa pela solidão do despertar.

De tudo, além daquilo que um dia eu espero cicatrizar, ficou a lição de que não há nada além do que não há. É como faca incandescente entrando no peito, mas é tão verdadeiro. Tão forte. Eu contemplava o horizonte cinzento, enquanto a cidade despertava pelas primeiras horas, o movimento das pessoas, o rio preguiçoso, o casario centenário, as ruas de pedra e o alarido do comércio abrindo. Não há nada além do que não há.

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