Redes Sociais

Já faz mais de um ano que não tenho Instagram e essa semana desativei o Facebook. Sobrou Twitter e LinkedIn. Até o fim do ano eles também serão desativados. Devo permanecer com esse blog, não sei por quanto tempo.

Não tenho uma vida interessante para mostrar aos outros, ou exibir por aí. Também não me interesso tanto pela vida alheia, para saber onde eles vão, o que comem, opiniões sobre algum assunto. Mas as redes sociais, comumente assim chamadas, nos viciam. Já não tenho TikTok, Kwai e congêneres. Uso o YouTube para escutar música enquanto estudo (vou montar uma lista de sugestões depois) e reduzi muito meu uso de celular. Já não o pego quando estou conversando com outras pessoas e as maiores funções dele são escutar música, usar o WhatsApp (que avalio parar de usar no futuro), ver algumas notícias e usar os serviços bancários. Descobri que só é possível fazer Pix através de um celular e que esse será, no futuro breve, a única forma de fazer transferências entre contas.

Mas a questão é o quão essas redes distorcem nossas realidades e nos deixam reféns de ilusões profundas. Nada ali é real e tudo o quanto pode ser mostrado é apenas um recorte, muito bem escolhido, de um mise en scène. E isso me fez muito mal, ao achar que todos estavam felizes. Não que eu seja, de fato, feliz. Não acredito que a felicidade seja para todos, nem algo a ser perseguido. Mas, dentro de um contexto lógico, ao perceber na tela do celular que todos ali sorriem, dançam, estão apaixonados e percorrem o mundo, nos faz parecer que temos uma vida menor.

As redes sociais mudaram a lógica de consumo e comportamento de massa, que se preocupa em registrar para o outro todas as atividades do cotidiano. Espaços precisam ser esteticamente agradáveis, mais do que funcionais, para atender a necessidade digital. Todos comem com o celular na mão, andam com ele pelas ruas, conversam com seus “seguidores” numa espécie de esquizofrenia digital. Não há mais o espaço privado, porque tudo o relativo ao eu deve ser divulgado. Só vale o que foi postado, referendado pelo número de curtidas, avaliado pelos comentários cheios de emoticons. Tudo isso já fez sentido pra mim, mas hoje percebo que é uma perda de tempo enorme.

Saber o que um ex-colega de escola, que não vejo há pelos menos vinte anos, está comendo no jantar, ou onde está passando suas férias, sendo que não troco uma palavra com ele desde a “formatura da oitava série”, não faz sentido nenhum. Também percebi que não faz sentido eu mostrar para algumas dezenas de pessoas os lugares que estou frequentando, o que ando fazendo ou deixando de fazer. O máximo que consigo achar de útil é esse exercício de escrita, que me ajuda a colocar ideias no lugar, como também é uma expressão do que sou. Já falei disso aqui. Sei que ninguém acessa esse blog ou lê o que escrevo, mas o mantenho como experiência de texto.

Há pessoas com vidas interessantes, profissões interessantes, famílias e talentos interessantes. Não é o meu caso. Por aqui é tudo comezinho, do acordar ao dormir. Uma rotina comum, sem muitas emoções, sem muitas nuances. Nada demais. Não faz sentido nenhum compartilhar o que faço. Sendo muito sincero, me sinto liberto ao não partilhar ou participar dessa dinâmica. Isso não me faz melhor perante os outros, mas me faz muito bem, que é o que importa.

Acredito que o vício digital vai levar um grande número de pessoas a padecer de problemas psicológicos, psiquiátricos ou até neurológicos. Há um excesso de informação, de má qualidade e baixa acuidade. Profissionais da educação relatam que os alunos possuem dificuldade de concentração, pela necessidade de sempre atender notificações ou se prenderem por horas a vídeos extremamente curtos e sem complexidade nenhuma. Cotidianamente sou cobrado por não responder mensagens no WhatsApp, porque as pessoas desenvolveram uma necessidade de imediatismo severo. Estar disponível o tempo todo, para qualquer tipo de assunto. Nem sempre estamos em situações de disponibilidade, sobretudo emocional. Nem sempre queremos lidar com todos os temas que nos chegam ou com todas as situações que nos demanda. Mas a velocidade da comunicação parece que distorceu a realidade e colocou a prova amizades e considerações, resumindo-as a respostas ou silêncios em aplicativos móveis.

Aos poucos nos isolamos do mundo real, nos estabelecendo em ilhas digitais. As pessoas constroem personagens, as crianças querem ser influenciadores, adolescentes vendem conteúdo erótico logo aos dezoito anos, adultos reduzem ao WhatsApp sua fonte de informação. Caminhamos a passos largos para uma massa de escravizados.

Ainda não sei muito bem o que pensar disso tudo. Mas decidi que não quero mais estar em redes sociais. Aos poucos vou abandonando-as, reduzindo o consumo, assim como um adicto vai se restabelecendo. Elas viciam. Nos dão doses de endorfina, através de vídeos curtos, fotos elaboradas, mensagens edificantes. Mas, como quase todas as drogas, nos trazem ansiedade, depressão, melancolia, distúrbios, disforias, etc. Há uma dose saudável para elas? Não creio. O melhor, em minha modesta e inútil opinião, é centrar nas pessoas reais que estão ao seu redor. Essas de fato importam e se importam. Para além disso, é perda de tempo.

Esta entrada foi publicada em O Mundo de Bruno e marcada com a tag , , , , , , , , , , , , , , , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *