Céu nublado de domingo

Caminhar a esmo me traz certa melancolia, pois preenche a cabeça de pensamentos não tão positivos ou ruidosos demais para lidar. Num domingo frio, sem muita expectativa, com o céu nublando e o barulho de pessoas se divertindo ao longe, parece um cenário propício para mergulhar nas dobras mais obscuras do coração. Ciente de tudo isso, resolvi arriscar.

Da rua de paralelepípedos, cheia de casas grandes e bonitas, é possível ver no horizonte o bairro de casinhas iguais, as casas do condomínio dos ricos, o clube da cidade, um morro verde com uma mata ao lado. Dá pra ver a torre da igreja, o parque montado com as crianças gritando, o rio que já foi caudaloso e hoje é só esgoto. A linha do trem com o recorte do pontilhão, esperando a composição cheia de minério e o apito do trem rasgando o dia. O céu vai nublando e por entre as nuvens os raios do sol de um fim de tarde. A luz ilumina o cinza predominante dos telhados, traz um certo ar bucólico. A cidade vai, aos poucos, perdendo a graça. Não existem muito mais quintais ou jardins, roseiras ou bougainvilles caindo por cima de muros de placas. Senhoras sentadas à beira do portão ou calçadas, pano cuidadosamente amarrado sobre a cabeça, falando da vida e dos seus rumos incertos. Há alguns meses derrubaram a cerca de bambu, não sem antes derrubarem a casa feita de adobe e telhas desencontradas. Nunca soube quem morava ali, mas agora provavelmente vão morar pessoas que gostam de casas mais retas, de janelas mais envidraçadas e grandes portas e portões. Mas o sol, o céu nublado de um outono estranho e desajustado, ainda ilumina e rasga reto, em leque, as nuvens grisalhas. Quem sabe chove?

À medida que eu caminho pela cidade, pelas ruas que eu cresci, eu vejo que já fui. Não sou mais. Agora é tempo de outro. Na mesma praça em que sentava com meus amigos, em que ríamos de piadas das quais já esqueci há muito, que ficávamos noite à dentro tomando refrigerante e sem maiores preocupações que a escola, estão outros adolescentes. Fazendo as mesmas coisas. Rindo, talvez, das mesmas piadas e criando as melhores memórias que poderiam ter. Mas a cidade não é mais a minha. Sento no banco, fito por alguns momentos a vida acontecendo. Ela faz sentido? Talvez faça.

Volto, com os olhos para o céu. Vendo o crepúsculo fazendo com que as nuvens se tornem avermelhadas e o frio – claro que saí sem casaco – vá tomando conta. O cemitério no alto do morro, meus antepassados lá, com muitas das minhas memórias e sorrisos. A rua que passei centenas de vezes, carregando um saxofone, solfejando um dobrado. A rua que outrora foi de pedras, blocos e hoje é de asfalto monótono. Volto para casa, me sentindo mais velho do que realmente sou, saudoso de uma época que, se não mais feliz, pelo menos mais branda. Minha mãe ainda me espera na soleira de casa, volto a ser criança. É domingo. Quem dera amanhã ainda tivesse aula, mas tenho que trabalhar. Anoitece.

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