Boa Sorte

O tema da canção
Meu coração guardou
Para dar a quem trouxer
A mensagem dos caminhos
Livres
Viagens de buscar
Sertão e beira-mar
Brincar de bem-me-quer
E uma doce companheira
Sempre

Hoje a noite serenou
Orvalho nos quintais
Acordei pensando em nós
E uma estrela caiu
Lembrei de não chorar
O tempo que passou
Lembrei de desejar
Boa sorte pra você
E o dia clareou

Boa Sorte
(Luiz Guedes, Márcio Borges e Thomas Roth)

Considero Boa Sorte umas das mais belas canções de Beto Guedes. Composta por Luiz Guedes, seu primo, Márcio Borges e por Thomas Roth, lançada no álbum Contos da Lua Vaga, de 1981.

Minha adolescência teve trilha sonora: dobrados marciais, rock progressivo, heavy metal e muito, mas muito Clube da Esquina. Escutava, incansavelmente, Milton, Lô, Beto e todo o grupo. Milton Nascimento é, para mim, insuperável e algo como um semideus da música. Contudo Beto Guedes sempre embalou boa parte de meus sentimentos e consegue me falar, com certa precisão assustadora, coisas que me calam a alma. E o mais incrível é que há muitos detalhes que só são tomados quando estamos mais velhos. Quando a vida vai nos levando a caminhos que jamais imaginaríamos percorrer. Hoje chorei escutando Boa Sorte.

Existem coisas dentro da gente que cremos estarem adormecidas, até que um solavanco nos faz perceber que as coisas não estão tão bem organizadas assim. Ressignificar sentimentos é algo muito difícil, sobretudo quando eles surgem a partir do outro e da expectativa que o outro gera. Não sou adepto do escárnio, do ódio, nem do despeito. Já fui, não minto. Hoje vejo que nada pode nos libertar a não ser nós mesmos, e não há amarras piores do que estas. Acho que o maior exercício de maturidade que podemos fazer é desejar o melhor para aqueles que nos prejudicaram. Alguns partem de crenças espirituais, outros de questões psicanalíticas, uma minoria é evoluída a ponto de não se importar. Marcas, todos temos. Algumas leves, outras profundas, mas todas, sem exceção indeléveis.

Eu gostaria de chorar mais. Acho que preciso soltar muita coisa que tem aqui dentro. Acaba que me pego em lágrimas ao escutar a aguda e harmônica voz de Beto num fim de tarde de domingo. Me pego pensando no que já foi, no que ainda vai ser. Nas escolhas, boas e ruins, feitas ao longo da vida. Me pego pensando nas minhas viagens e caminhadas pelo sertão, assim como aquelas à beira-mar. E como eu deixei de viajar. Como eu deixei de brincar de bem-me-quer. Quando lembrei de não chorar, já era tarde demais.

Escrevo aqui para mim. Sei que ninguém lê esse blog. Também não é o objetivo. Aqui organizo minhas ideias, treino um pouco da escrita e coloco algumas coisas pra fora. Venho aqui quando sinto que preciso vir, ou quando vejo que só a escrita vai me trazer o alívio da pressão que sinto entre as orelhas. É um espaço solitário, apesar de público. Apesar do coração mal organizado, dos sentimentos que mal consigo compreender, das coisas que ainda me falam e pensava eu estarem mortas, parece que ainda há algo por aqui. Já senti raiva, já senti medo, já senti uma tristeza que achei que nunca mais ia passar. Já senti dó, que é um sentimento horrível para se ter dos outros. Já senti amor, é claro, mas esse nunca valeu de nada. Já senti. Hoje pensei que não sentiria mais. E depois, que o tempo passou, que o dia clareou, a única coisa que sinto é a vontade de desejar: boa sorte!

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