
Nos antigos Rituais da Roda do Ano celebra-se uma festividade de “meio de inverno”. É o momento em que boa parte da escuridão já se foi e a luz, que a primavera trás, é uma esperança cada vez mais concreta. Em Imbolc faz-se uma grande limpeza de nossa casa, arrumando armários, organizando estantes, tirando a poeira, mudando móveis de lugar. Quando a primavera chegar, celebraremos Ostara, com a casa limpa e com o cheiro de pães e flores. Mais do que rituais ligados às estações do ano e as fases da natureza, os chamados Sabbats celebram as fases de nossa vida e os momentos dos ciclos internos e externos que temos em nosso ser.
O meio de inverno, Imbolc, é um chamado para planejar o que há de melhor. É uma espécie de pausa no refrigério da estação, colocando um pouco de movimento numa época do ano que, dado ao clima, é naturalmente parada. Ao entrever a primavera, daqui há cerca de um mês e meio, precisamos lembrar de nossas capacidades internas e de transformação. Muitos evocam Brigit, ou Brígida, Deusa Celta ligada à lareira, à forja, à promessa de casamento, ao bom parto e ao pastoreio. Em muitos mitos Brigit pastoreava ovelhas, cabras ou vacas. Em todas as versões o fruto desse pastoreio é o leite, nutrição primal, líquido da vida que inicia. Nos rituais de Imbolc, sobretudo em suas releituras modernas, oferece-se leite para Brigit, como pacto de uma boa proteção e maternidade.
Penso que o chamado de Imbolc é o de acender, dentro de nós, a capacidade de iluminar nossos planos e projetos. Temos a tendência de não confiar em nossas qualidades e nos tornar absortos, automatizados, em nosso cotidiano e rotina. Imbolc nos chama para por um lume nisso, para que tenhamos certeza de que a primavera que se avizinha seja vivida em sua intensidade. Nossa vida, assim como a natureza, é feita de ciclos e momentos. A Roda do Ano nos ensina a aprender com os ciclos naturais e a observar como cada parte reage a cada momento, frente as intempéries e desafios. Todos anseiam pela primavera, pelas flores, pelos pássaros, pelo nascimento da criança. Poucos se planejam para isso. E é o que Imbolc nos chama a atenção.
Tenho vivido uma reorganização da minha vida, que me fez perceber uma certa letargia causada por uma esperança podre de um eterno porvir. Fui alimentado pela tola esperança vã de que as coisas “vão dar certo”, enquanto em sofrimento vivia todo o incerto. Aprendi a me contentar com pouco, entendendo que não era merecedor de mais nada, a não ser aquilo que estava tendo. E me anulei para caber em expectativas e formas que atendiam esses ditames. Deixei de perceber os ciclos, porque era me proibido ser aquilo que eu era. Há alguns meses comecei a me libertar de tudo isso e tomei algumas decisões, como a de revisitar antigos cadernos, antigas práticas, antigas reflexões. Foi nesse momento, que em sofrimento, vi o quanto me perdi de mim mesmo e de tudo aquilo que eu queria pra mim.
Nesse meio de inverno, tenho tentado me planejar da melhor forma que posso. Carrego muitas feridas e incertezas, mas tomei a decisão de acender um novo lume para que eu possa buscar, dentro de mim – e f0ra – o melhor caminho a tomar. Talvez, fazer esse caminho se necessário for. Rogo a Brigit, aos Deuses e Deusas que regem esse Universo, que possam ser luz nesse meu caminhar, não sem antes eu ser luz para mim mesmo.
