Veio a manhã e parti
Mas quando cheguei aqui
Os astros podem contar
No dia em que me perdi
Foi que aprendi a brilhar
Eu vi
Virei estrela
Eu vi
Virei estrela
Eu vi
Virei estrela
(Estrela, de Vander Lee)
Há coisas que falam ao coração, nos dizem alto lá dentro, ressoam dentro de nós, marejam os olhos e embargam a voz. Queria poder transformar essas coisas em poesia, dar versos aos sentimentos que alimento ou evito alimentar. Em minha cabeça as coisas seriam mais fáceis se eu conseguisse, mas também sei que é ilusão. Não nasci com o dom da rima, muito menos da estética. Traço linhas, truncadas, mal redigidas, enfadonhas, buscando me organizar. Escrevo porque preciso. E queria não precisar. Clarice dizia que escrever é uma maldição, mas uma maldição que salva. Concordo.
Escrevo nas primeiras horas de uma segunda, enquanto espero um ônibus que jurei nunca mais pegar. É aquela sabedoria de vó: jamais diga que dessa água não beberei, porque dela pode se afogar. Cá estou me afogando, sabendo que passarei a madrugada em claro e terei que trabalhar a segunda-feira toda. Mas é da sina da vida: fazer escolhas ruins, pagar língua e maldizer qualquer coisa que possa tirar nosso peso de responsabilidade disso.
Desde a última vez que coloquei algumas palavras por aqui – sei que ninguém lê, mas é terapêutico – muita coisa aconteceu. Aprendi muito, errei muito, sofri um bocado, quase morri e sigo tentando entender para onde que tudo está me levando. E daí eu percebi que deixei de olhar o céu e as estrelas. Os navegadores, com seus instrumentos e sabedoria, se guiavam por Argo Navis, buscavam por Órion, navegam por Eridanus, sob o lombo de Equleus. Encontravam caminhos no mar revolto – às vezes sem volta – povos, sereias e alguns monstros. Portos amigos e inimigos, ondas bravias ou a temida quietude sob sol à pino. Mas navegavam. Pompeu, como lembrou Pessoa, dizia que navegar é preciso, viver não é preciso.
Da janela embaciada de um ônibus, contemplando uma lua que míngua, percebi que deixei de mirar as estrelas e passei a viver sem rumo. Me perdi de mim e deixei de brilhar. Na busca de enquadrar o que sinto, o que penso e o que acredito, acabei me tornando apenas mais um, em tom de cinza, numa multidão que sobrevive ao invés de viver. O silêncio de uma cidade que dorme, nos ruídos noturnos de uma casa outrora mais habitada, a ansiedade natural da espera pela condução, a mente que tenta se organizar em texto. Tudo isso me faz pensar no que preciso buscar, onde quero chegar.
Trem do desejo
Penetrou na noite escura
Foi abrindo sem censura
O ventre da morena terra
Espero voltar a sonhar, a desejar. A ter olhos que brilham sob um horizonte emoldurado por um sol nascente, ou sob a luz das estrelas que salpicam um céu enegrecido e esperançoso. Enquanto isso escrevo por aqui ou por ali.