Quando olhei para meus pés

Minha avó dizia que não havia me criado para ter calos. Deveria conservar pés e mãos sempre limpos, bem cuidados e macios. Nesse desejo, bem exposto, que a futura profissão não fosse braçal ou manual. Em seus cuidados zelosos, vovó queria que eu não precisasse tocar em enxadas, pás, ou ferramentas de manuseio mais duro. Segui seus conselhos, creio que mais por falta de habilidades com as ferramentas, do que por vocação ao emprego burocrático e repetitivo da repartição. Mas não é sobre profissões que quero falar, mas sobre a sabedoria que só percebi trinta anos mais tarde, contida nesse cuidado.

Diziam que eu era uma criança que não suportava estar sujo nem descalço. Sujar as mãos era um terror – coisa que acredito esteja ligado ao autismo, descoberto tardiamente, e as dificuldades sensoriais que me afetam. Ao longo do tempo sempre preferi estar com calçados fechados e, se descalço, dentro de casa. Não sei andar de chinelos. Sobretudo os de dedo, que batem em meu calcanhar a cada passo e irritam a mim, como provavelmente a todos ao meu redor que são obrigados a escutar o insistente batido constante da borracha. E o não saber andar foi que eu devo ter calçado meu primeiro chinelo de dedo por volta de uns vinte anos de idade. O outro modelo, de enfiar o pé, acho mais confortável, mas já perdi alguns pares, ao chutá-los em passos mais rápidos.

O problema não são os chinelos, mas a minha relação com eles. Consequentemente minha relação com meus pés. Entender a importância deles foi essencial para me reencontrar. Percebi o quanto eles estavam descuidados, doentes, rachados e feridos. Percebi que eu mesmo estava assim: descuidado, doente, rachado e ferido. Eles eram o reflexo da vida que levei ao tomar caminhos que não eram meus. Caminhos tomados para agradar pessoas, para ser mais bem aceito, para não ser tomado como estranho. Aceitar usar chinelos e a andar descalço por onde nunca me acostumei a andar.

Pode ser uma analogia pueril. A mim, ao ver aqueles que sustentam meu corpo e me levam onde quero, totalmente desgastados e malcuidados, me ajudou a perceber que eu não estava mais olhando para o que estava acontecendo comigo. Estava aceitando pouco como muito, esmola como fortuna, dó como afeto. E os pés que vovó tanto falava que deveriam ser cuidados, quase em carne viva, com unhas micosentas e calcanhares escavados.

É claro que não foi o uso prolongado de chinelos que me deixou assim. Mas ao longo do processo terapêutico percebi que fui largando meus hábitos de cuidado e gosto pessoal por outros, mais palatáveis àqueles que me rodeavam. E assim fui perdendo o cuidado comigo mesmo. Fui perdendo a capacidade de gostar de mim e de ver em mim algum fio de futuro.

Meus pés estão bem melhores. Quase da forma como vovó pedia que eu os mantivesse. Os chinelos são usados apenas ocasionalmente. Mantenho minha rotina de autocuidado, no corpo e na mente. Escolho quem eu quero ao meu redor e não me imponho mais a vontades que não são minhas. Deixei de buscar nos outros aquilo que eu precisava encontrar dentro de mim: aceitação. No fim, vovó sempre esteve certa.

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Uma resposta para Quando olhei para meus pés

  1. Edilson disse:

    André, tudo bem? Te mandei mensagem lá no messenger do IG. Vou pra tua cidade, queria lhe dar um abraço

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